Pais modernos, muitas vezes perplexos e angustiados, passam a vida inteira correndo como loucos, em busca do futuro e esquecendo-se do agora. Nessa luta, renunciaram ao presente. Com prazer e orgulho, a cada ano, preenchem sua declaração de bens para o Imposto de Renda. Lotes, casas, apartamentos, chácaras, sítios, casas de praia, automóveis do ano – tudo isso custou tempo, muito tempo de lutas.
Se partir de repente, já cumpriu sua missão, e não vai deixar a família desamparada. Há pais que não se contentam com um emprego só, vendem parte das férias, levam serviços para casa, almoçam fora, fazem reuniões…
Mas a verdadeira declaração de bens, o valor que efetivamente conta está em outra página do formulário do Imposto de Renda - naquelas modestas linhas, quase escondidas, onde se lê: relação de dependentes. São os filhos que colocaram no mundo, a quem devem dedicar o melhor de seu tempo.
Os filhos, novos demais, não estão interessados em propriedades e no aumento da renda. Eles só querem um pai e uma mãe para conviver, conversar, brincar… Os anos passam, os meninos crescem e os pais nem percebem. Entregues à construção do futuro, não participaram de suas pequenas alegrias. Nunca foram a uma festa infantil, não tiveram tempo de ir à reunião da escola. Não se deve desviar a atenção para essas bobagens. São coisas para desocupados. Há filhos órfãos de pais vivos porque a família está desintegrada, sem amor, sem diálogo, sem convivência. É esta convivência que solidifica a fraternidade entre irmãos, abre caminho no coração, elimina problemas e resolve as coisas na base do entendimento. Há irmãos crescendo como verdadeiros estranhos, que só se encontram de passagem em casa. E para ver os pais é quase preciso marcar a hora.

Depois de uma dramática experiência pessoal e familiar vivida, a mensagem que tenho a dar é: não há tempo melhor aplicado do que aquele destinado aos filhos. Dos 18 anos de casado, passei 15 absorvidos por muitas tarefas, envolvido em várias ocupações e totalmente entregue a um objetivo único e prioritário, construir o futuro para 3 filhos e minha mulher. Isto me custou longos afastamentos de casa, viagens, estágios, cursos, plantões no jornal, madrugadas no estúdio da TV… Uma vida sempre agitada, tormentosa e apaixonante, na dedicação à minha profissão – que foi, na verdade, mais importante do que minha família.
Agora estou aqui com o resultado de tanto esforço. Construí o futuro, penosamente, e não sei o que fazer com ele depois da perda de Luiz Otávio e Priscila. De que vale tudo o que juntei, se esses filhos não estão aqui para aproveitar isso com a gente? Se o resultado de 30 anos de trabalho fosse consumido agora por um incêndio, e desses bens todos não restassem nada mais do que cinzas, isso não teria a menor importância, não ia provocar abalo em nossa vida, porque a escala de valores mudou e o dinheiro passou a ter peso mínimo e relativo em tudo.
Se o dinheiro não foi capaz de comprar a cura de meu filho amado que se drogou e morreu; não foi capaz de evitar a fuga de minha filhinha, que saiu de casa e prostitui-se e dela não tenho mais notícias, para que serve? Para que ser escravo dele?
Eu trocaria com extrema gratidão, todas as linhas da declaração de bens por duas únicas que tive que retirar da relação de dependentes: -- os nomes de Luiz Otávio e Priscila. E como doeu retirar essas linhas da minha declaração de imposto de renda. Luiz Otávio morreu aos 14 anos e Priscila fugiu de casa um mês antes de completar 15.
Meus amigos, este é um Depoimento verdadeiro de Hélio Fraga, jornalista em Belo Horizonte,Boa Semana - e não esqueçam de fazer a Declaração do I.R. prazo termina em 30 de abril 2010.
um Grande Abraço - GERSON SUTIL